Há algum tempo, havia uma menina, que tinha uma outra mentalidade, criou novos princípios e novas experiências, inseriu-se numa 'tribo' e pesquisava sobre isso, interessava-se por todos os assuntos relacionados com o tema.
Estava numa fase má da sua vida, via muitos túneis mas nenhum sem saída, não sabia como reagir a todas as mudanças que aconteciam na sua vida, não sabia que fazer para mudar o seu rumo.
Cada dia que passava, sentia-se pior e pior, passava os dias a ouvir música pesada, isolada de tudo e todos, e desenhava, desenhava sem fim, e por vezes coisas sem sentido algum.
No meio de uma das suas pesquisas, encontrou uma provável 'solução' para todos os seus problemas, encontrou uma página com a seguinte informação: ' Ao cortar-me senti que a dor que sentia tinha desaparecido, é como se a dor psicológica se concentra-se toda naquele pequeno corte, diga-mos que fiquei muito mais descontraído ', seguido de uma imagem de um pulso com uma linha a dizer 'cut here'. Mas não se ficou por aí, pesquisou, pesquisou até à exaustão, e cada vez a ideia lhe soava melhor.
Era dia 3 de Outubro de 2007, à tarde, lá estava ela sentada na secretária ao lado do computador, com uma dor no coração insuportável. Olhou em seu redor e nada via, até que olhou para o seu estojo e viu ali a arma perfeita para cometer o seu crime: um porta-minas. Pegou nele, não hesitou, e nem sequer pensou. Com toda a força que tinha, usou o porta-minas e desenhou no seu pulso esquerdo três x, símbolo que usava frequentemente. Olhou para aquele sangue a escorrer e decidiu tirar uma fotografia, para mais tarde recordar (?). Agora, no fim, era tempo de pensar numa solução para esconder aquele sangue e aquele sinal que estava gravado, e daí surgem as suas amigas pulseiras, usou-as sem as retirar dias e dias a fio.
A menina sentia-se agora 'feliz', e conseguia finalmente perceber aquela frase inicial que tinha visto no site. Achava incrível aquela situação, a dor que sentia à imenso tempo estava agora toda reunida naquelas 'minúsculas' feridas. Nessa semana sentiu-se tão feliz, uma felicidade que à vista das outras pessoas não era entendida. Passado essa mesma semana, toda aquela 'felicidade' desapareceu, e ela não entendeu porque.
Era agora tempo de recorrer àquela nova terapêutica, aquela que a tinha ajudado anteriormente. Desta vez, foi à cozinha e escolheu duas novas armas: dois tipos de facas. 'Tinha saudades dos seus X' dizia. E lá surgiram eles novamente, voltando aquela 'felicidade' que ninguém compreende. Cada vez que as feridas iam cicatrizando era tempo de reavivá-las, não as deixar fechar, não as deixar ir embora. Arranhar por cima do que estava, arrancar as crostas e tapa-las com pulseiras que não deixassem o local respirar fazia agora parte do seu dia-a-dia.
Era hora do jantar, era a hora da verdade: Sentada à mesa, e sem pulseiras, a camisola do pijama descaiu e surgem assim três ferimentos num braço à vista da sua mãe. A menina diz que não é nada, que apenas se magoou, mas notava-se que a verdade não podia, de todo ser essa. Corre para o quarto e a sua mãe corre atrás e fecha a porta. Ficam as duas num silêncio devastador, até que a sua mãe a chorar lhe pergunta a razão de todos aqueles comportamentos, a razão daquilo que fez a si própria, só lhe perguntava o porquê. A menina derramava lágrimas, e mantinha-se virada para a parede calada. Passaram uma ou duas horas naquilo, até que a sua mãe desiste, e ao sair só diz: 'Vais ao psicólogo, vai fazer-te bem.'
Ao inicio a ideia não lhe parecia grande coisa, mas foi, era uma experiência nova, e que a ajudou tanto!
A partir dessa primeira ida à psicóloga, a menina cresceu, desenvolveu capacidades que até à altura desconhecia e tornou-se forte. Lutou e lutou, e conseguiu largar aquele hábito que tinha, aquele vicio (é isso que é considerado), aquela forma de ultrapassar os problemas. Um ano depois, em Outubro de 2008, surge com este apoio psicológico um novo apoio, alguém que entra na sua vida na etapa em que mais precisava, que se tornou fundamental e que a ajudou a acabar 'de vez' com este vicio, com esta maneira de escapar aos problemas.
Mas adivinhem, o que ficou para a relembrar sempre destes episódios? Pois, pois é, lá no seu braço esquerdo permanecem três belos X gravados, que não a deixam esquecer tudo o que passou, e que há ali sempre um 'escape', sempre que precisar pode recorrer a este método.
Pois bem, agora a menina, em Outubro de 2010, ficou sem o seu apoio, não me refiro ao da psicóloga, mas o outro que referi, ficou sem a base que sustentava a sua vida, aquela em que depositou toda a sua confiança, pela qual daria a sua vida, sente-se como se tivesse perdido tudo, mudou drasticamente, DE NOVO. Sente-se a voltar ao passado, não sai, não fala com quase ninguém, fica em casa junto ao computador, a ouvir música com as luzes apagadas 'no seu mundo' e a reflectir sobre o passado. Confessa que sente uma enorme vontade de pegar no primeiro objecto que encontrar e de o encostar de novo ao seu pulso e fazer o que sempre fez, mas sabe que NÃO PODE fazê-lo. Não pode não só porque não deve, mas não pode também porque o caminho que escolheu não o permite. É aluna de enfermagem e diariamente nas aulas, tem que usar os braços para alguns exercícios como avaliar o pulso e medir a tensão arterial, e assim toda a gente veria aquilo e iriam ficar alarmados :s Cada vez que isso acontece, fica com o coração nas mãos com medo que se apercebam das pequenas marcas que ainda estão visíveis. Depois surge a questão da tatto que quer fazer, uma tatuagem de uma pequena estrela no sitio dos x, mas não iria ficar bem por causa das cicatrizes e nunca mais poderia usar aquela zona para outros fins. Que drama que está de novo a viver!
Sim, ela sabe que existem mais áreas do corpo que são menos visíveis, no entanto, está a ser forte e não se está a deixar levar por esse pensamento, está a conseguir encarar que esse não é o caminho certo, e que existem muitas vias por onde pode seguir. Mas é tão DIFÍCIL, ir por um caminho difícil quando tem ali um caminho fácil à frente e sabe que resulta melhor que nenhum outro! A menina vai acabar por conseguir passar esta fase da sua vida menos boa, e quando a passar vai olhar para trás e perceber o quão forte foi e que venceu um grande obstáculo da sua vida, que não desistiu e sempre teve coragem para seguir em frente.
FORÇA, MUITA FORÇA ♥
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